• Luiza Carvalho

Um desabafo sobre educação no transporte coletivo


A quarta-feira amanheceu nublada e meio fria. Me levantei, arrumei minhas coisas e saí rumo ao ponto de ônibus para ir trabalhar. E como todos os dias, o ônibus da manhã seguia lotado. No horário em que uso o transporte coletivo, já observei que grande parte dos passageiros são pessoas idosas. Por isso me habituei a ficar quase sempre de pé, pois quando entro já restam poucos lugares. Hoje decidi me sentar, mesmo sabendo que nos próximos pontos iria encher e talvez eu precisasse levantar.

À medida que o ônibus seguia seu percurso, o espaço ficava mais apertado. Um rapaz cedeu seu lugar a um senhor, e logo me levantei quando vi uma senhora entrando com dificuldade. Mais a frente, uma moça se levantou do preferencial para que outro idoso pudesse se sentar. Estava sendo um dia diferente, pois não é tão comum as pessoas sempre se levantarem por educação. E pronto, o ônibus estava lotado. Na parte da frente 100% das pessoas eram idosas. Se mais algum entrasse, dificilmente conseguiria um lugar.

Foi nesse momento, então, que pela porta de trás surgiu um deficiente visual. Cego, obeso, negro. Não me levem a mal por citar essas características, mas é que notei que algumas senhoras o observavam o tempo todo e aquilo me incomodou. Ele entrou, esperou, e alguém o cutucou para dizer que não havia lugar. Eu olhava inquietamente para os lados, na esperança que alguém sentado na parte de trás levantasse para ele se sentar, já que na frente eram só idosos. Mas nada aconteceu.

Chegando próximo ao centro da cidade, o ônibus parou em um ponto que muita gente iria descer. O senhor cego estava parado de pé, no caminho que várias pessoas precisavam passar. Era um "obstáculo" no caminho. Ao invés de pedirem licença com educação, porém, as pessoas passavam o apertando, o empurrando. De repente uma senhora, que o encarava com um olhar franzido, disse em tom ríspido: "o senhor podia encolher essa sua barriga, porque a gente precisa passar!". Tremi. Não acredito que ela falou aquilo, daquela forma grossa e descarada, eu pensei. No rosto daquele homem cego, a expressão com a testa franzida deixava nítido que ouvir aquilo o deixou verdadeiramente magoado. Engoli seco, sem saber como reagir, porque aquilo acabou comigo.

Como se não pudesse ficar pior, ele percebeu que o lugar a sua frente estava vago e decidiu sentar. Mas no banco ao lado havia uma outra senhora, que se espremeu toda, foi logo se levantando e dizendo com ironia:"deixa eu procurar outro lugar, porque você é meio gordinho e não vai caber a gente direito aqui", dando um sorriso amarelo ao olhar para a direção em que eu estava. O homem colocou a mão na cabeça, abaixada, balançando em sinal negativo. Era notável o quanto ele estava desconfortável, para dizer o mínimo. Fiquei revoltada por ele. Desci do ônibus, ele também desceu. Mas aquela cena martelou na minha mente por horas.

Infelizmente, situações como essa devem se repetir todos os dias. Os usuários reclamam do preço do ônibus, da demora, da lotação... mas talvez um dos grandes problemas do transporte público seja a falta de educação das pessoas. Pessoas mais novas que se sentam no banco preferencial e não se movem dali, mesmo vendo um idoso ou deficiente de pé; pessoas idosas que querem ser respeitadas, mas que nem sempre respeitam o próximo; pessoas que, nem por educação, cedem o lugar a alguém que precisa. Pessoas que atropelam quem está de pé quando poderiam pedir licença, ou que empurram quem está esperando sua vez de entrar no ônibus, para entrar na frente. Pessoas que ouvem música alta, sem se importar se está incomodando os outros. Pessoas que desrespeitam o motorista, motoristas que desrespeitam os passageiros. E mais várias outras atitudes erradas, que eu poderia ficar aqui listando.

Hoje a falta de educação é com o cego, com o idoso, com a gestante. Amanhã, se nada mudar, vai ser com a gente, quando nós formos os idosos. As pessoas querem que a cidade seja melhor, que ofereça coisas melhores, mas é preciso primeiro olhar para si mesmo. É clichê dizer isso, eu sei, mas a mudança começa em cada um de nós.

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